Por que a sucessão pode não ter sucesso?

Os números para o sucesso na transição de gerações das empresas familiares têm sofrido alterações. Pelas minhas pesquisas mais recentes, a taxa de sucesso subiu para 38% em relação à troca da primeira para a segunda geração e quando as empresas passam por um processo planejado de ações este número pode subir para 68%.

Dentro desse quadro, que é muito difícil de ser superado, existe uma variedade de dificuldades. De acordo com as minhas pesquisas pode-se entender como principais dificuldades para a troca de comando, os seguintes pontos:

  • Falta de um planejamento da sucessão,
  • Incompatibilidade na visão estratégica entre sucessores e fundador e
  • Centralização do poder pelo fundador.

A falta de planejamento da sucessão é provavelmente a dificuldade mais citada pela literatura e nos meus estudos aparece a sua confirmação.

Não fazer planejamento, independentemente da área, parece ser uma postura dos dirigentes das organizações de pequeno porte, tendo por parte deles uma postura mais reativa em face às mudanças no cenário empresarial.

Esta prática de não elaborar um planejamento para a sucessão não deve estar fora desta postura, porém outros fatores podem ser mencionados para a sua falta: resistência em deixar o poder por parte do fundador e não-conhecimento para a realização de um planejamento sucessório.

A resistência em deixar o poder é compreensível em razão de receios que o fundador possa ter, como por exemplo:

  • Receio de ter que tomar uma decisão em relação à escolha do sucessor;
  • Receio de ficar sem ter como se sustentar no restante de sua vida;
  • Receio de a empresa não ser tão bem gerida como pelo fundador e
  • Receio de perder a sua identidade, que está baseada na posição social e empresarial que a organização fornece ao fundador.

Outro fator que provavelmente contribui para a falta de um planejamento sucessório é o não-conhecimento de como conduzir um programa de sucessão, dado que os estudos na área não são conclusivos e sim indicativos para quadros gerais. Essa situação dificulta o dirigente da pequena empresa que muitas vezes não possui recursos financeiros para a contratação de consultoria externa, perante as muitas decisões que tem que tomar (sem o conhecimento de como agir) para o desenvolvimento do processo sucessório.

A incompatibilidade na visão estratégica entre sucessores e fundadores é outra dificuldade encontrada e está centrada nas diferentes percepções que os fundadores têm tanto na direção do negócio quanto na forma de gestão, em contrapartida às perspectivas dos sucessores.

Um dos fatores que pode explicar esta incompatibilidade reside nas divergências de gerações, pois elas são significativamente diferentes. Cada geração tem experiências e expectativas que se contrapõem entre as gerações.

Outro aspecto refere-se à possibilidade de rivalidade entre sucessores e fundadores, pelo fato de os sucessores buscarem seu espaço (sugerindo uma visão mais moderna) e os fundadores não quererem realizar mudanças para que não aumente a possibilidade de perda de controle da situação.

Finalmente, deve ser observado que essa dificuldade relacionada à incompatibilidade de visão estratégica é encontrada nos sucessores de forma mais acentuada quando comparada aos fundadores. Esse fato parece sugerir que, devido a uma forte resistência e centralização por parte dos fundadores em mudar as concepções estratégicas da empresa, acabam por deixar os sucessores distantes da gestão.

Mais uma dificuldade para a realização do processo é a Centralização do poder pelo fundador. Nas pesquisas, uma observação interessante é que esta dificuldade aparece com mais ênfase pela perspectiva dos fundadores. Esse dado é curioso pois os próprios fundadores percebem que a sua centralização atrapalha todo o processo de transferência de poder de uma geração para outra.

A centralização pode ser compreendida em razão do fundador que sempre decidiu sozinho, e em outro momento tem que compartilhar as decisões com outras pessoas. Os herdeiros muitas vezes ainda são vistos como filhos e, portanto, têm menos conhecimento do que o pai.

Pense nisto. Quando superadas estas dificuldades existe a possibilidade da taxa de sucesso subir para 68%.

As informações acima fazem parte das minhas pesquisas neste tema.

Prof. Armando Lourenzo. Doutor e Mestre em Administração pela FEA/USP. Diretor da Ernst & Young University. Professor da FIA, USP e FGV.

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