Inglês e slides impecáveis não bastam. É preciso entregar resultado

Tenho refletido muito sobre a demanda do inglês e a necessidade de falar o idioma fluentemente nas empresas. Com certeza essa habilidade tem relevância indiscutível em várias situações dentro do ambiente do trabalho, que vão desde a participação em reuniões virtuais, orientação da força de trabalho durante a execução das estratégias e até mesmo em apresentações para o board. Dito isso, não há discussão: o inglês é importantíssimo.

Outro ponto que chama atenção nas organizações refere-se à capacidade dos profissionais fazerem apresentações com slides atraentes e, sobretudo, bem-estruturadas.

É possível avaliar que esses materiais ajudam muito nas dinâmicas das reuniões, tornando mais fácil a compreensão do conteúdo. A dinâmica dos efeitos e transições podem contribuir para deixar esses encontros menos cansativos e mais didáticos.  Dessa forma, também vejo com bons olhos uma apresentação bem estruturada e baseada em slides de qualidade.

Apesar de ter ciência a respeito da necessidade do inglês nas grandes organizações e da eficácia das apresentações de destaque, não acredito que apenas estes dois atributos sejam responsáveis por demonstrar o verdadeiro trabalho das pessoas. E é essa exagerada valorização o que mais me chama atenção.

Reconhecer as aptidões e os atributos individuais é, sim, muito importante. Falar inglês é vital em uma empresa, pois em muitos momentos, essa pode ser a única maneira de entrar em contato com pares e lideranças. Do mesmo modo, ser capaz de fazer uma apresentação impecável faz parte dos diferenciais que os profissionais deveriam possuir para terem uma carreira diferenciada. Contudo, não podemos confundir habilidades e atributos com os resultados.

Por exemplo: imaginar que pessoas introspectivas perdem para os extrovertidos na hora das reuniões pode ser uma visão distorcida. Eu mesmo já presenciei maravilhosas e consistentes apresentações de executivos introvertidos e tantas outras péssimas e vazias dos mais extrovertidos. Ou seja, não há uma regra geral e absoluta que condicione aos mais comunicativos as apresentações de destaque na empresa.

O ponto maior da minha reflexão neste artigo não é o domínio das aptidões, mas, sim, a valorização excessiva dos profissionais que dominam ambas as capacidades como se depois da reunião – em inglês e com slides maravilhosos – todas as estratégias apresentadas tivessem caminho livre para serem implementadas como o previsto, sem dar atenção às próximas etapas de todo o processo.

No final das contas, as empresas vivem e crescem de maneira sustentável quando têm os resultados esperados. E é no momento em que olhamos para isso, que fazemos a separação profissional das pessoas que têm um discurso internacional magnífico e slides brilhantes, mas que não alcançam os resultados, daquelas que, talvez, tenham estas aptidões acima do desejável, mas não no extremo da excelência – mas que sempre entregam os resultados esperados.

O ideal é que tenhamos várias competências desenvolvidas como adaptabilidade, learning agility (para escrever em inglês), inteligência emocional, comunicação oral, um segundo idioma, entre outras, mas, na prática, isto não é fácil. É importante ter em mente que não devemos fazer julgamentos prematuros ao final de uma reunião e acabarmos nos surpreendendo com resultados pífios.

Ter competências desenvolvidas é formidável, mas, em alguns momentos, devemos nos preocupar mais com o potencial de desenvolvimento das pessoas no médio prazo para que elas possam trazer os tão esperados resultados. Também é preciso entender que é importante que as pessoas construam e trabalhem suas reputações sempre de maneira íntegra e ética. Afinal, saber trabalhar com pessoas e como desenvolvê-las é um caminho certo para a entrega de resultados.

Armando Lourenzo. Doutor e Mestre em Administração pela FEA/USP. Pós-Graduando em Filosofia pela PUC. Diretor da EY University para Latam Sul e Brasil. Presidente do EY Institute. Palestrante e autor de livros e artigos na área de negócios.

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